Morte súbita em “atletas de final de semana”

A atividade física, quando realizada de forma regular, proporciona um efeito protetor para várias doenças contribuindo, inclusive, para regressão da aterosclerose que é uma patologia decorrente da formação de placas de gordura nas artérias. Além de outros benefícios, a melhora do condicionamento físico contribui para a redução do perfil lipídico e para o aumento da sensibilidade à insulina.
No entanto, para indivíduos que possuem patologias cardiovasculares, muitas vezes assintomáticas, o exercício físico de alta intensidade perde o fator protetor e a morte súbita pode ocorrer tanto em atletas profissionais altamente treinados, como em pessoas sedentárias que praticam exercícios físicos apenas eventualmente.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a morte súbita ocorre dentro das primeiras 24 horas após o início dos sintomas, entretanto, alguns autores consideram a primeira hora, entre o aparecimento do sintoma até o momento do óbito.
Morte súbita é um evento que ocorre raramente, ou seja, a incidência é estatisticamente pequena e tem um maior índice em atletas profissionais. Um estudo realizado em Veneto, na Itália, acompanhou por 21 anos a população de homens e mulheres dessa região com idades entre 12 a 35 anos e constatou a ocorrência de 2,3 por 100.000 mortes súbitas em atletas e 0,9 por 100.000 em não atletas, concluindo que os atletas morrem 2,5 vezes mais do que os indivíduos não atletas.
A maioria das pesquisas realizadas com atletas profissionais aponta como principal causa de morte súbita a cardiomiopatia hipertrófica, responsável pela hipertrofia (espessamento) de uma porção do miocárdio e ocorre em quase todos os esportes, porém, a maioria foi encontrada no futebol (30%), basquetebol (25%) e atletismo (15%).
Apesar de uma maior prevalência de morte súbita em atletas profissionais, cabe destacar o grupo dos “atletas de fim de semana”, que são aqueles indivíduos de vida sedentária e que, esporadicamente, resolvem fazer exercícios vigorosos como jogar futebol ou outro esporte no final de semana, sem preparação para tal atividade e sem qualquer avaliação médica.
Além da predisposição a lesões devido ao despreparo da musculatura e falta de condicionamento físico, esses indivíduos têm também um risco maior de morte súbita, pois muitas vezes eles já possuem uma obstrução parcial de alguma artéria coronariana que ainda não apresentou sintomas.
Para identificar os indivíduos de risco, alguns sintomas podem servir de alerta, tais como, o histórico de morte súbita na família, palpitações, desconforto, dor no peito, e fadiga desproporcional ao exercício que está sendo realizado.
Como a maioria das mortes súbitas são decorrentes de patologias cardíacas pré-existentes e ainda levando-se em consideração que algumas delas são assintomáticas, a prevenção é essencial e deve incluir o conhecimento do histórico familiar, um exame clínico, um teste de esforço e um eletrocardiograma.
Ainda como fator de prevenção, é extremamente importante a presença de desfibriladores portáteis e pessoal treinado em ressuscitação cardiopulmonar em ambientes onde são realizados treinamentos físicos, pois nos primeiros minutos o indivíduo ainda pode ser reanimado.
A cidade de Seattle nos Estados Unidos tornou-se um exemplo na prevenção de ataques do coração com índices de sobrevida que chega a quase 50%. Isso se deve à implantação de um sistema de emergência espalhados pela cidade que conta com desfibriladores e pessoas treinadas. Há inclusive cartazes em toda a cidade com os dizeres “Se você tiver que ter um ataque cardíaco, tenha em Seattle”.
Analisando por outro ângulo, todas as vezes que a morte súbita ocorre em atletas profissionais, há uma grande repercussão nos meios de comunicação, porém, nem sempre as notícias fornecem informações mais detalhadas sobre o assunto, podendo, dessa forma, desencorajar a população a fazer atividades físicas.
De fato, como já foi citado, um sedentário que faz atividades físicas de alta intensidade, de forma eventual, tem um risco maior de morte súbita do que um indivíduo regularmente ativo, porém, a atividade física não pode ser desencorajada, uma vez que as estatísticas mostram que o sedentarismo é o maior fator de risco ligado à mortalidade.
Um estudo americano de Harvard acompanhou por nove anos 8421 homens com idade média de 66 anos e sem doenças crônicas e eles foram divididos em quatro grupos:
1º grupo: sedentários, gastando em atividade física menos de 500 kcal/semana;
2º grupo: insuficientemente ativo, 500-999 kcal/semana
3º grupo: “atletas de fim de semana”, ≥ 1.000 kcal/semana em esportes de lazer uma ou duas vezes/semana.
4º grupo: regularmente ativos, ≥ 1.000 kcal/semana, fazendo atividade física todos os dias.
No período analisado, morreram 1234 homens e os atletas de final de semana tiveram um risco menor de morrer em comparação ao grupo dos sedentários. Os resultados sugerem que a atividade física regular gerando 1.000 kcal/semana ou mais deve ser recomendada para diminuir as taxas de mortalidade e, para pessoas sem maiores fatores de risco, mesmo fazendo exercícios de 1 a 2 vezes por semana gerando 1.000 kcal/semana ou mais pode adiar a mortalidade.

A incidência de morte súbita é estatisticamente pequena e ocorre, na maioria das vezes, em consequência de patologias cardíacas pré-existentes, portanto, é possível prevenir. Em contrapartida, a atividade física é altamente recomendada e não pode ser desmotivada, pois tem função protetora quando realizada com regularidade e uma avaliação médica antes de iniciar um programa de exercícios é imprescindível na prevenção de ocorrências.

Texto: Profa. e Personal Trainer Paula Cavalcante
São Paulo

Referências:
1 – Corrado D.et al. Does sports activity enhance the risk of sudden death in adolescents and young adults? J.Am.Coll.Cardiol.3;42(11):1959-63. Department of Cardiology, University of Padua, Italy, 2003
2 – Bille K. et al. Sudden cardiac death in athletes: the Lausanne Recommendations. European Journal of Cardiovascular Prevention and Rehabilitation Vol 13 No 6, 2006.
3 – Lee I et al. The “Weekend Warrior” and Risk of Mortality, Am J Epidemiol, 160:636–641, 2004

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